Parece até a história da Cinderela.
Andrew Kim, um jovem coreano-americano formado em Design Industrial há apenas três anos,
foi descoberto e contratado pela Microsoft depois de a empresa ver um projeto de redesign da marca que ele fez como exercício.
Quando vi a notícia, fui correndo conferir o trabalho do rapaz; afinal, a marca da Microsoft já foi redesenhada com um conceito minimalista, e a proposta de Kim foi enxugar ainda mais o ícone já simples ao extremo que a companhia adotou.
(Não faz muito tempo, comprei para meu PC um teclado Wireless Keyboard 800 que tem o novo logo da janelinha em pespectiva do Windows 8 na tecla Windows, mas ao mesmo tempo exibe a tipografia antiga da marca em relevo na base. Na mesma loja ainda existe à venda o lote anterior do mesmo teclado, cuja única diferença física é a tecla Windows com a janelinha no estilo do Windows 7/Vista. Meu curioso modelo "transicional" poderá valer algo no futuro, como item colecionável - quem sabe?)
Fiquei surpreso ao descobrir que já tinha visto outros projetos "pro bono" feitos por este Kim. Apenas não sabia que eram todos da mesma pessoa. Além de cutucar a Microsoft, ele também teve a audácia de conceber uma garrafa ecológica para a Coca-Cola que abandona o formato clássico cheio de curvas, e ainda provou que o rendimento no transporte e a exposição do produto no ponto de venda seriam muito melhores usando o conceito dele. Inventou um painel de controle revolucionário para automóveis (espero que já tenha inscrito todas as ideias no escritório de patentes). Em poucas semanas, ensinou a si mesmo como usar CAD e uma 3D printer para criar um protótipo de carro de brinquedo. Repensou o design fundamental de uma câmera compacta (com menos sucesso que em seus outros projetos, mas valeu o esforço). E, novamente empregando uma considerável dose de audácia, repensou todo o sistema de votação eleitoral dos EUA, do proceesso em si ao design gráfico, apresentando os resultados como se fosse uma tarefa óbvia e banal. Não existe nada que ele considere pronto demais ou intocável quando se propõe a reinventar e otimizar.
Tais projetos diletantes nada têm de ingênuos: sempre buscaram atrair atenção na mídia e seduzir alguém da indústria. O painel de carro leva o nome da Toyota, a Coca-Cola é da própria Coca-Cola, a Microsoft é ela mesma, o carrinho traz o logo da Honda e a câmera foi batizada de Pentax. Você pode argumentar cinicamente que a Microsoft é a opção de patrão menos empolgante dentre essas, mas veja bem, o gambito deu certo. Agora ele está dentro da companhia, com a missão nada trivial de reinventar o Xbox. Se por um altamente improvável deslize ele não der certo lá, funda seu escritório de design para atender múltiplos clientes corporativos e está feito na vida.
Durante os primeiros anos deste blog - guardadas as óbvias diferenças em talento, preparo, tempo, recursos, ambição e apresentação - eu também acreditei na filosofia de "construa e eles virão", pensando que bastaria apresentar ideias originais para ser convidado a participar na festa dos envolvidos. O blog, aliás, veio por existir por esse motivo e isso está refletido até mesmo em seu título.
Quase fiz o mesmo que o Kim pensando no Metrô de São Paulo/CPTM, entre 2008 e 2011. Deixei de publicar meu estudo de redesign de sinalização do sistema porque na mesma época as empresas passaram a usar um novo modelo de mapa das linhas que colidia com minha ideia, e a seguir fragmentaram sua comunicação visual quase unificada em três projetos desarmônicos, o que só se explicaria por questões políticas internas - o que me fez perder a vontade de levar adiante a ideia.
Talvez, em vez de ter passado alguns anos criticando os frequentes redesigns ruins de marcas importantes - o que até gerou considerável tráfego e sucesso para o blog em seu tempo -, eu deveria ter apresentado ideias próprias plausíveis, a fim de estabelecer um contraponto positivo. Provavelmente os conceitos úteis seriam simplesmente copiados sem qualquer reconhecimento, já que estamos no Brasil - mas do ponto de vista moral, teria sido um bom investimento.