2009-06-27

Tipógrafo, ilustre desconhecido

O comunicólogo Marshall McLuhan, em seu livro “A Galáxia de Gutenberg”, de 1962, afirmou que a invenção da tipografia foi a grande precursora da industrialização. A gráfica baseada em tipos móveis teria sido, segundo ele, a primeira linha de montagem. De fato, a impressão de livros representava a aplicação prática de uma nova atitude em relação ao conhecimento técnico, que seria uma característica fundamental da civilização ocidental a partir do Renascimento. E o próprio Renascimento foi insuflado pela impressão de livros: a explosão de cultura decorrente varreu a Europa e alterou o mundo inteiro para sempre.
Ainda dá para enunciar a mesma coisa de mais uma maneira: a invenção do tipo móvel foi a primeira etapa da conversão do artesanato em automação, a marca da Era Industrial.
Hoje, na era Pós-Industrial, a tipografia está aos poucos abandonando o suporte de papel para firmar-se em manifestações efêmeras de letrinhas pixeladas em telas eletrônicas de computadores. Vem aí o papel eletrônico: a própria tinta muda de forma magicamente para gerar páginas inéditas.
Ao longo de todo esse panorama histórico, chega a ser curioso como a figura do tipógrafo, o designer responsável por inventar os tipos com os quais nós escrevemos de tudo e sobre tudo, continua sendo uma figura obscura. Isso já valia para o próprio Gutenberg, de quem só sabemos com certeza o nome e onde ficava a sua oficina tipográfica. Faltam partes extensas de sua biografia; não se sabe muito bem o que ele imprimiu, além das famosas Bíblias; até os seus retratos foram inventados muito após sua morte.
Por outros motivos, o tipógrafo moderno também é uma espécie de artesão obscuro e relativamente anônimo. As criações de mestres como Garamond, Caslon, Baskerville, Didot, Gill, Benton, Zapf, Frutiger, Slimbach e de Marco cercam-nos por toda parte. É impossível viver um dia sem passar os olhos por letras concebidas por essa pouco numerosa e bastante restrita elite de artistas-técnicos com nomes esquisitos. Em páginas de revistas, em cartazes, em logotipos, em sinalização pública, em embalagens de alimentos, em produtos de limpeza, as suas criações alfabéticas simplesmente tomam parte em tudo.


Adrian Frutiger em seu estúdio caseiro em 2003.


Diferentemente de designers mais novos, ele insiste em criar os tipos à mão...


...mas as aparências enganam: ele é mestre em todas as técnicas tipográficas, do metal ao digital.

A razão dessa presença silenciosamente insidiosa é que os tipos mais populares são tão eficientes e definitivos que tornaram-se “transparentes”: nós não os percebemos conscientemente. Apenas um designer treinado olha para uma embalagem e identifica os tipos usados. E o que ele pode fazer com essa informação? É algo mais útil como referência para o próprio trabalho dele do que para o consumidor, cuja única real preocupação é ler e entender a mensagem rapidamente.

Cada estilo tipográfico funciona como um sotaque visual do texto. É por isso que faz bem dispor de um vasto repertório de tipos. Há estilos que pelas formas de suas letras sugerem alegria, tristeza, seriedade, precisão, sarcasmo, juventude, paixão, singeleza, arrogância e uma infinidade de outros contextos emocionais. As pessoas captam esse caráter nas letras de um texto naturalmente, sem necessitar nenhum conhecimento formal de design. É como ouvir música pelos olhos.


A caligrafia é o ponto de partida fundamental para a tipografia.


Tipos de metal dominaram o primeiro meio milênio de impressão.


Xilogavuras reproduzindo estilos históricos desde o tempo romano.

Ao mesmo tempo que o tipógrafo não é uma estrela no mundo cultural, o mundo da tipografia passa por uma revolução técnica atrás da outra. Desde o princípio da prensa com tipos móveis, a tecnologia que produz textos em massa mudou repetidamente. E embora a criação artística e cultural migre sempre da técnica de cada época para a seguinte, as mudanças estão se acelerando.
Há 120 anos, cada texto ainda precisava ser composto letra por letra, à mão. Então surgiu o linotipo, uma máquina milagrosa que fundia linhas completas de texto a partir da simples digitação em um teclado. Isso permitiu aos jornais incharem o volume de seus textos sem tanto esforço. Mais adiante vieram as modernas técnicas litográficas, que hoje são usadas para imprimir de tudo. Na metade do século passado, os tipos já não dependiam necessariamente de um molde de metal: passaram a ser reproduzidos fotograficamente. Na década de 60, começaram a surgir formas de produzir as letras usando equipamentos de vídeo.
Finalmente, no começo dos anos 80, chegou a revolução que domina o cenário até hoje: a tecnologia digital. Tão flexível e maleável que só a imaginação limita os resultados possíveis. E ainda assim, fantasticamente trabalhosa, como pode atestar qualquer tipógrafo atual. É, talvez os tipógrafos não sejam muito populares porque o trabalho os prende demais e limita sua vida social.


Depois de revolucionar a tipografia europeia, Frutiger ajudou a modernizar outros alfabetos (aqui, o Devanagari indiano).


Frutiger estudando a escrita cuneiforme, usada entre 2 e 6 mil anos atrás.


Folha de teste para checar o espaçamento de caracteres de uma fonte nova.

Até a era digital, todas as tecnologias gráficas sempre demandaram equipamentos incrivelmente caros e complexos, operados por técnicos especialistas com muitos anos de estudo. Não mais. A atual geração de tipógrafos, usando computadores iguais ao que você tem em casa, está produzindo tipos tão refinados e variados que rivalizam com o que já se produziu de mais sofisticado no setor desde o pioneiro ano de 1450.


Univers (1957) foi a primeira família de fontes com preciso interrelacionamento geométrico.


Frutiger também criou sistemas de sinalização pública (aqui, o Metrô de Paris).


Adrian Frutiger, nascido perto de Interlaken há 81 anos, mora e trabalha nas vizinhanças de Berna, e também faz escultura e gravura.

Os primeiros anos da tecnologia digital foram dominados pela recriação, no novo suporte computadorizado, dos tipos mais marcantes do passado. Essa fase está encerrada. Os tipógrafos estão livres para vislumbrar o futuro e criar algo completamente inédito e inesperado. E quem sabe dessa forma eles ainda virem astros da cultura popular. Já fizeram bastante para merecer isso.

Artigo ilustrado com imagens do documentário Adrian Frutiger: The Man of Black and White, de Christine Kopp e Christoph Frutiger, 2004.
Cortesia Claudio Rocha e Linotype.
 

2009-06-26

Fragmentos do BOL




Logo do BOL por Tony de Marco, 1996


Em outros artigos, contei um pouco da aventura do BOL - Brasil Online, o ambicioso portal e provedor de Internet que o Grupo Abril inaugurou em abril de 1996 e, após apenas cinco meses no ar, foi fundido ao UOL, do Grupo Folha.

Para sermos brutalmente honestos, o UOL fagocitou o BOL. Absorveu a infraestrutura tecnológica do rival, tomou conta dos sites de revistas da Abril, converteu a página de notícias do BOL na versão online de fato da Folha de S. Paulo e por fim relançou a marca BOL como um serviço de webmail gratuito, quatro anos depois.

Leia a história oficial da Abril. O BOL por pouco não virou nota de rodapé. Diziam em 1996 que o BOL teria sido "sacrificado" ao UOL porque era um "projeto skunkworks" do núcleo Exame, não uma ideia da direção da empresa. Talvez estes pensassem que a Internet nunca chegaria a ser um meio crucial para a sobrevivência das empresas jornalísticas, como extensão a elas ou como ameaça. Algum tempo depois do fiasco do BOL, a Abril recomeçou sua participação na Internet quase do zero, criando um provedor de banda larga (Ajato) e, bem depois disso, trazendo de volta para casa os sites das suas revistas.

Pelo lado do UOL, BOL é um serviço de webmail gratuito, lançado em janeiro de 2001. O Brasil Online (que a Abril prefere chamar de Brasil On-Line) aparece nomeado por extenso para diferenciá-lo do BOL atual.

Um pouco do clima do BOL de 1996 transparece em emails internos das equipes de redação e tecnologia, que postei aqui.

Há algumas semanas, dez ex-membros do BOL original (relacionados na lista de biografias que publiquei aqui) reuniram-se para comemorar o 13º aniversário no Frangó, bar de São Paulo que é próximo ao edificio da Abril onde ficavam as redações. Lá acontecera a reunião de despedida da equipe antes da fusão com o UOL e também o reencontro dos 10 anos. Fiz fotos (medíocres) do novo encontro e logo elas serão postadas aqui também. Por ora, deixo outra lembrança.

Para este encontro, levei na mochila um Apple PowerBook de 1996, da minha coleção de Macs antigos. Em perfeito estado, exceto pela falta da bateria. Dentro dele, um Netscape da época e arquivos internos de desenvolvimento do design do BOL, entre home pages publicadas e protótipos. Pretendia mostrar o material aos companheiros, numa experiência sensorial tecno-retrô. Os GIFs descem lentamente, como cortininhas, mesmo sendo gravados no HD e não recebidos via modem.

Infelizmente, não havia tomada à mão para alimentar o laptop. Então, prometi publicar a galeria de antiguidades do webdesign aqui. Delicie-se com alguns pedacinhos da história da Web brasileira que certamente você nunca viu.

Todas as home pages a seguir são protótipos e propostas não usadas, com exceção da primeira e da última – o que explica a feiura de umas e os textos falsos em outras. Os designs passavam de mão em mão numa equipe de cinco pessoas, a fim de acumularem ideias novas. Minhas contribuições principais foram os ícones das seções, exatamente no mesmo estilo dos que desenhara na mesma época para a revista Macmania, e a divisão retangular da "barratopo" nas duas últimas versões. As imagens centrais com os destaques só eram trocadas semanalmente. O equivalente de um portal atual, com notícias atualizadas em tempo real, era uma página interna, chamada Linha Direta. Talvez a melhor coisa que o BOL tinha e o UOL não. O período aqui representado vai de junho a agosto de 1996.































Num post futuro, publicarei partes das páginas internas, incluindo alguns banners curiosos e seções internas, incluindo a afamada Linha Direta.



Releitura minha do logo do BOL, 2009
(criado durante a reunião do 13ª aniversário)


Também estive no UOL

O que aconteceu comigo depois da fusão BOL-UOL contém uma boa dose de ironia. Inicialmente, a equipe do BOL foi assimilada pelo UOL na fusão. A maioria do pessoal, porém, pulou fora. Havia ressentimento. Vários foram fazer carreira na concorrência. Os sites da Bookmakers (a editora da Macmania) ficavam todos no Terra (então chamado ZAZ). Definitivamente, nada de UOL para muitos dos ex-BOL.

Mas eu e o Douglas Okasaki permanecemos na arte do UOL. Era conveniente, mas parecia-me ridículo ter me demitido da Folha de S. Paulo para trabalhar na Macmania e na Abril, e dali a seis meses retornar ao mesmo prédio da Alameda Barão de Limeira (a redação original do UOL ficava no terceiro andar, um abaixo da Folha). Revia os ex-colegas de jornal na entrada, na saída e no lanche da tarde.

Eu e o Douglas fomos encarregados de contribuir com sugestões para uma nova página de entrada do portal que incorporasse os novos links. Deveria ter destaque para a Linha Direta, a página de notícias do BOL, renomeada simplesmente para BOL.

Esbocei com lápis e papel um conceito "planetário": colocar o símbolo circular do UOL no centro da página e distribuir as seções do site por uma órbita elíptica em torno do símbolo, como se fossem planetas. Douglas encarregou-se de executar na tela esse conceito, enquanto eu desenvolvia páginas de gastronomia e turismo (e fazia um bico numa capa da Folhateen). Fazíamos piadas sobre o que aconteceria se o usuário clicasse no símbolo do UOL.

Mas não cheguei a ver a nova home page pronta dentro da redação do UOL. Caio Túlio Costa demitiu-me alguns dias antes, por "excesso de contingente". Douglas permaneceu e virou diretor de arte. Nunca cobrei o dinheiro do mês que passei trabalhando na redação do UOL.
A home page "planetária" foi imortalizada na seção de história interna do UOL:



Quatro anos depois, fiz dois trabalhos para o novo BOL: ícones para um sistema de publicação interno e cartões virtuais ilustrados, na companhia de artistas como Laerte, Tom B e Orlando. Os cartões saíram do ar, mas o site ainda existe: virou o Cartões UOL.

Michael Jackson






Acima, uma rápida e rasteira restauração de scans de capas da Rolling Stone dos tempos áureos do músico.

2009-06-24

Twitter já dava trabalho no meu tempo

 

 
Quer mais?
Visite o The Fail Whale Fan Club.

2009-06-23

2009-06-22

Lidando com Flames e Trolls

Leia este artigo no site do jornal britânico Guardian, na verdade uma carta de leitor. Em tradução rápida e rasteira:

Se o anonimato for concedido aos blogueiros e a quem posta nos fóruns, eles precisam baixar a bola. Eu raramente os leio devido à linguagem desagradável, agressiva e rude. Nenhum artigo é discutido em boa fé. Além dos inevitáveis "Este comentário foi removido pelo moderador", leio coisas do tipo "como você fala merda", "você é um idiota completo" etc.
Temos de reconhecer: a anonimidade traz à tona o pior das pessoas. Supõe-se que alguém com algo a dizer deve ter o preparo para fazê-lo de forma polida, assumir a autoria do que disse e providenciar um endereço para resposta. Isso ainda é um requisito da seção de cartas.
É triste ver que cada avanço na informática parece nos reduzir ao mínimo denominador comum. Quando surgiram os computadores, eles prometiam enormes avanços na educação. Em vez disso, vieram os videogames violentos. Então surgiu a Internet, que nos encheu de pornografia. Agora temos os fóruns online, que tinham o potencial de revolucionar o debate público e quem sabe também a tomada de decisões, mas estão tomados de ciberpixações.
Talvez a solução seja criar dois fóruns paralelos: um bem-educado com os nomes e endereços das pessoas, e um de vale-tudo para os demais.


(Não me incomodo com os jogos violentos nem com a pornografia. Podem ser livres, bastando que as pessoas que não curtem essas coisas não sejam expostas a elas :-)

A carta do leitor acusa a anonimidade como fonte do mal, mas o buraco é mais embaixo. A falta de responsabilidade pessoal pelo que se diz na Internet é a verdadeira raiz do problema. O clima de guerra e a desonestidade intelectual permeiam também muitos websites onde todo mundo está devida e perfeitamente identificado.

A cultura fracassou. Facetas desse fracasso são a incapacidade de comunicar-se civilizadamente, porque o próprio conceito de um comportamento civilizado desmoronou. Também caracterizam nossa época a vontade exacerbada de falar e nenhuma de ouvir. A intimidação como ferramenta de prestígio social. O recurso fácil ao rótulo para classificar tudo sem precisar explicar. O desinteresse por ideias que não sejam as suas próprias. Falta de compreensão das motivações pessoais alheias. Tendência a desconsiderar a possibilidade de uma declaração conter senso de humor e ironia. Ausência de empatia com os sentimentos de quem não se conhece em pessoa. A opção primária pela ameaça para "marcar território". A crítica que não visa comentar visando o melhoramento de algo, somente destruí-lo.

Chegamos ao ponto lamentável em que crítica e ataque, comentário e provocação, sempre são tomados como uma e mesma coisa. E a única defesa conhecida por quem assim pensa é outro ataque pior. Em apenas duas ou três respostas, já temos um flamewar.

A questão de os websites serem campos de batalha virtuais me ocupa desde o tempo em que os comentários neste blog eram novidade, por volta de 2002-2003. Havia quantidades muito grandes de comentários em qualquer assunto. Hoje há mais visitantes, mas a multiplicação dos sites pulverizou as atenções; no geral, a informação postada perdeu a relevância relativa. As práticas dos visitantes mudaram de acordo. Além de escreverem muito menos, é raro que alguma participação seja maldosa, porque o clima tácito aqui é de "pode brincar mas seja sério". Que outros autores de sites também conseguem manter com sucesso. Mas nós somos uma minoria remanescente de tempos mais civilizados na rede.

Antes de ter blog, administrei um fórum. Sem a moderação, a cacofonia domina tudo. Vi que a brutalidade tende a explodir se o administrador afrouxar apenas um pouquinho a tolerância à animosidade alheia. Sem supervisão, o abuso da ferramenta de comunicação por seus usuários é certo, garantido e inevitável.

Dizia-se nos anos 90 que "por trás do modem todo mundo é valentão". Só mudaram as moscas. O ambiente ruim de muitos newsgroups e fóruns – especialmente os de assuntos polêmicos e fanatizantes, como futebol, política e sistemas operacionais – transferiu-se para os sites sociais. Notavelmente no orkut, com suas comunidades de ódio; também no YouTube, onde todo e qualquer vídeo é acompanhado de um flamewar irrefreado; mas agora também no Twitter, onde existe gente interessada em parasitar a audiência de outras pessoas gritando com elas. Até entendo a sua lógica. É mais fácil fazer isso do que escrever ensaios. Os insultos cabem em frases curtas. Dão menos trabalho.

A trollagem sempre existiu, mas está mudando para um perfil mais generalizado e mais instantâneo. O cara que perturba no Twitter é uma otimização eficiente daquele chato clássico de lista de discussão, que responde a toda questão com uma tese pedante de milhares de caracteres e faz questão de responder aos outros frase por frase, até matar o thread por exaustão.


A voz do povo não é a voz de Deus

Este blog está no ar há oito anos e meio. A população online no Brasil multiplicou-se várias vezes desde então. Subjetivamente, acho que os abusos verbais públicos aumentaram numa proporção maior. Você pode montar a sua roda de discussão para encontrar os culpados pela nossa péssima "netiqueta". Algumas explicações que vejo por aí frequentemente:

  • O problema é de educação e cultura familiar. A nova geração de usuários da rede é definitivamente mais prepotente e truculenta. (A geração anterior não tinha testado tanto os limites.)

  • A inclusão digital facilitou o vandalismo pelas pessoas sem compromisso moral com o que foi culturalmente construído antes de elas participarem. (Presumindo que pobre = deseducado, o que acho uma generalização questionável.)

  • Com ou sem identificação, as pessoas ainda se imaginam como entidades à parte, invulneráveis e inimputáveis. (Válido em todas as épocas e em todos os meios.)

    Eu não acho que nenhum desses fatores responda à questão sozinho. Mas o terceiro é o meu favorito. É óbvio que a rede propicia um clima de liberdade artificial, facilitando a escalada da violência verbal de um jeito que a vida real não permite. É o sonho realizado de todo agressor covarde.

    Isso é especialmente preocupante ao sabermos que a sociedade brasileira em geral, ao contrário da de outros países, enxerga o espaço público como local de confronto e disputa, não como local de convivência. Para comprovar, basta sair à rua e olhar ao redor. É um ambiente falsamente civilizado, governado por uma hierarquia de forças, onde cada um só busca levar vantagem sobre o próximo. Vale isso também para websites dinâmicos como o Twitter, fóruns, blogs etc. Some-se a isso a identidade camuflada ou anonimidade e temos uma alarmante concentração de sociopatas azedando o clima.

    A maneira clássica de lidar com um troll é ignorando-o. Nada o frustra mais que o desprezo de quem ele considera digno de briga. Porém, em alguns casos, é preciso ir além e retaliar exemplarmente. Na rua, a forma definitiva de coerção para inibir impulsos antissociais é autuação. Institua-se uma multa, organize-se os meios de fiscalização e cobrança e todo mundo passa a obedecer a lei como por mágica. Na Internet, por não existir esse instrumento – o banimento de um usuário é apenas um quebra-galho pontual, não uma solução geral –, o recurso que resta é causar a humilhação do troll frente aos seus pares. Não vencer com argumentos, mas vencer pela desqualificação do oponente. Retribuir sua desonestidade em apenas um golpe. Você gosta de fazer isso? Eu também não.

    Você não deve dedicar tempo demais a capinar trolls. Na maioria dos casos, basta avisar que a conversação está encerrada e bloqueá-lo. Vale para email, blog, fórum, chat, rede social e Twitter. Gente mal informada reclama do bloqueio chamando-o de "antidemocrático", "fascista" e outros termos cujo significado desconhecem. Vi isso no Twitter ao anunciar que estava bloqueando um mala persistente. Só que:

  • Como foi dito acima, sem moderação na comunicação o abuso por alguém é garantido.

  • Filtrar conversações é algo que fazemos todos os dias na vida não-conectada, de forma tão natural que mal percebemos. Maridos filtram a conversa de esposas e vice-versa. Políticos filtram os discursos uns dos outros.

  • Todo mundo tem direito a julgar se a opinião alheia lhe serve e, a partir daí, evitar ler o que considera idiota e usar o seu tempo para ler o que considera útil. Mesma coisa em sentido oposto: só entramos nos threads de discussão em que temos algo para contribuir.

    O desarmamento mental requer necessariamente a filtragem e alguma dose de bloqueio.


    Trolling leva a cyberbullying

    A definição de troll pede por uma revisão. Na primeira geração da Web e antes dela, um troll era alguém que postava um comentário provocativo, inadequado ou capcioso para causar respostas inflamadas de outros participantes da conversa.

    A palavra troll vem de "trolling", que significa "pescaria de currico" – modalidade de mar aberto na qual uma isca artificial é arrastada na água, parecendo uma isca viva. O contexto inicial pré-Web era de "pescar" a gente mais novata e ingênua; fazer uma pegadinha.

    Na era da Web, o significado ficou mais carregado. Atualmente, vejo o trolling degenerando em flamewar tão prontamente que os dois fazem parte de um contexto único de confronto agressivo. E ele pode continuar degenerando até virar cyberbullying – cuja versão menos maligna é a humilhação pública de que já falei, mas pode facilmente virar uma rixa real entre pessoas reais, com ameaças de ações judiciais, patrulhas e perseguições, tentativas de retribuição física no mundo real, e outras consequências que não me enchem exatamente de orgulho pela humanidade.
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