2013-05-17

Uma Apple Store em Illustrator



Infografia e ilustração, hoje em dia, só faço como projeto especial, pois tirei esse tipo de trabalho de meu foco há alguns anos. Mas o Sérgio Miranda sugeriu esta pauta fantástica para a Macmais e não tive como recusar. Imediatamente após fechar a DPBR32, arrumei fôlego para entregar esse trabalho dentro do prazo da revista-irmã. Estimo o tempo de execução total em 14 horas, incluindo layout da página, legendas e um segundo gráfico sobreposto ao desenho. Tudo, incluindo os efeitos de luz e as imagens inseridas, foi realizado dentro do Illustrator.

A ilustração foi baseada na patente que foi concedida no ano passado pelos EUA, indicando os elementos apontados como características essenciais específicas de todas as lojas da Apple. (Nem todas as lojas possuem a famosa escada de vidro, mas todas apresentam as mesmas mesas e balcões, por exemplo.) A ideia aqui é dar um gostinho do ambiente da futura primeira loja da Apple no Brasil. É claro que na vida real a loja vai estar sempre apinhada de gente, obstruindo um pouco a vista. Leia a revista para saber de todos os detalhes.

Um mapa melhor para o Metrô

A quem teve curiosidade de saber o que eu estava tramando para o Metrô, eis uma amostra: um mapa de linhas com o design mais racional que o oficial divulgado pelo governo do estado.


(Note que este mapa não pode ser utilizado em situações práticas, por conter uma rede de linhas futuras que segue planos de expansão bastante modificados desde a época de sua confecção. Além disso, está inacabado em vários pontos, com nomes de estações diferentes e colisões entre textos. A tipografia não foi totalmente resolvida.)

O meu traçado foi inteiramente desenvolvido dentro de um grid rigoroso visando regularidade e economia de espaço, além de ser fundamentado na topologia das linhas, com ênfase nos pontos de cruzamento e usando o traçado mais reto possível entre os cruzamentos. Cuidei ainda de não perder a orientação básica das linhas em relação aos pontos cardeais. Resulta mais legível que o mapa oficial, que com seus constantes redesenhos, sempre exibiu muitas falhas de traçado e orientação. A versão oficial apresentada aqui para referência é a a que circulava na mesma época da última versão do "meu" mapa, junho de 2011.


Na época em que comecei o projeto, simplesmente não existia esse mapa unificado das linhas de Metrô, CPTM e EMTU. Portanto, posso afirmar que previ muitas características necessárias do mapa oficial antes de ele ser criado. Quando ele surgiu, porém, não era o desenho razoavelmente legível que vemos acima, mas sim uma versão incipiente com ângulos desiguais, detalhes obscuros e textos em ângulos múltiplos. O mapa oficial atual acrescentou os dois principais rios que cruzam a cidade, contribuindo para reduzir a abstração topológica, e deu um tempo com o tradicional costume demagógico de mostrar coisas que ainda não foram construídas. Porém, ele mantém um absurdo traçado torto para a Linha 4 - Amarela, tem a informação mal distribuída e não prevê espaços visuais adequados para as expansões.

Essas deficiências no mapa oficial me impeliram a seguir tocando o projeto nas raras horas vagas em meu trabalho principal, que não é de design gráfico. Incidentalmente, tal projeto cobriria também todos os aspectos da comunicação visual do sistema, que além de muito desgastada e nunca completamente unificada, sofreu recentemente uma fragmentação, com a Linha 1 adotando isoladamente um padrão de tipografia diferente e bem pior que o original. Ao mesmo tempo, as estações novas e reformadas da CPTM adotaram também ideias visuais divergentes, o que apenas indica externamente a influência da política interna dentro das empresas e exemplifica o pouco caso com o qual esse aspecto crucial para os usuários tem sido levado pelo supervisor geral dos sistemas de transportes, que é o governo paulista.

Desde então, houve uma explosão de mapas alternativos na Web, muitos deles dedicados a explorar os projetos de expansão, o que tendo em vista os atrasos e mudanças constantes, pode ser uma tarefa fantasticamente cansativa para quem faz isso de forma diletante.

2013-05-15

Mostre o que sabe fazer e eles contratarão. Pelo menos lá fora



Parece até a história da Cinderela.

Andrew Kim, um jovem coreano-americano formado em Design Industrial há apenas três anos, foi descoberto e contratado pela Microsoft depois de a empresa ver um projeto de redesign da marca que ele fez como exercício.

Quando vi a notícia, fui correndo conferir o trabalho do rapaz; afinal, a marca da Microsoft já foi redesenhada com um conceito minimalista, e a proposta de Kim foi enxugar ainda mais o ícone já simples ao extremo que a companhia adotou.

(Não faz muito tempo, comprei para meu PC um teclado Wireless Keyboard 800 que tem o novo logo da janelinha em pespectiva do Windows 8 na tecla Windows, mas ao mesmo tempo exibe a tipografia antiga da marca em relevo na base. Na mesma loja ainda existe à venda o lote anterior do mesmo teclado, cuja única diferença física é a tecla Windows com a janelinha no estilo do Windows 7/Vista. Meu curioso modelo "transicional" poderá valer algo no futuro, como item colecionável - quem sabe?)

Fiquei surpreso ao descobrir que já tinha visto outros projetos "pro bono" feitos por este Kim. Apenas não sabia que eram todos da mesma pessoa. Além de cutucar a Microsoft, ele também teve a audácia de conceber uma garrafa ecológica para a Coca-Cola que abandona o formato clássico cheio de curvas, e ainda provou que o rendimento no transporte e a exposição do produto no ponto de venda seriam muito melhores usando o conceito dele. Inventou um painel de controle revolucionário para automóveis (espero que já tenha inscrito todas as ideias no escritório de patentes). Em poucas semanas, ensinou a si mesmo como usar CAD e uma 3D printer para criar um protótipo de carro de brinquedo. Repensou o design fundamental de uma câmera compacta (com menos sucesso que em seus outros projetos, mas valeu o esforço). E, novamente empregando uma considerável dose de audácia, repensou todo o sistema de votação eleitoral dos EUA, do proceesso em si ao design gráfico, apresentando os resultados como se fosse uma tarefa óbvia e banal. Não existe nada que ele considere pronto demais ou intocável quando se propõe a reinventar e otimizar.

Tais projetos diletantes nada têm de ingênuos: sempre buscaram atrair atenção na mídia e seduzir alguém da indústria. O painel de carro leva o nome da Toyota, a Coca-Cola é da própria Coca-Cola, a Microsoft é ela mesma, o carrinho traz o logo da Honda e a câmera foi batizada de Pentax. Você pode argumentar cinicamente que a Microsoft é a opção de patrão menos empolgante dentre essas, mas veja bem, o gambito deu certo. Agora ele está dentro da companhia, com a missão nada trivial de reinventar o Xbox. Se por um altamente improvável deslize ele não der certo lá, funda seu escritório de design para atender múltiplos clientes corporativos e está feito na vida.

Durante os primeiros anos deste blog - guardadas as óbvias diferenças em talento, preparo, tempo, recursos, ambição e apresentação - eu também acreditei na filosofia de "construa e eles virão", pensando que bastaria apresentar ideias originais para ser convidado a participar na festa dos envolvidos. O blog, aliás, veio por existir por esse motivo e isso está refletido até mesmo em seu título.

Quase fiz o mesmo que o Kim pensando no Metrô de São Paulo/CPTM, entre 2008 e 2011. Deixei de publicar meu estudo de redesign de sinalização do sistema porque na mesma época as empresas passaram a usar um novo modelo de mapa das linhas que colidia com minha ideia, e a seguir fragmentaram sua comunicação visual quase unificada em três projetos desarmônicos, o que só se explicaria por questões políticas internas - o que me fez perder a vontade de levar adiante a ideia.

Talvez, em vez de ter passado alguns anos criticando os frequentes redesigns ruins de marcas importantes - o que até gerou considerável tráfego e sucesso para o blog em seu tempo -, eu deveria ter apresentado ideias próprias plausíveis, a fim de estabelecer um contraponto positivo. Provavelmente os conceitos úteis seriam simplesmente copiados sem qualquer reconhecimento, já que estamos no Brasil - mas do ponto de vista moral, teria sido um bom investimento.